Timóteo, a incrível estória do homem que morreu três vezes
Reinaldo Gimenes
Quem o conheceu, sabe: ele era a personificação da calma e da alegria.
Nunca faltava um sorriso aberto, uma palavra amiga, um caloroso aperto de mão, a voz grave e solene.
Do alto do metro e quase noventa de altura, o motorista Clóvis sempre foi muito querido entre os colegas da Prefeitura e sua semelhança com o cantor Agnaldo Timóteo rendeu-lhe o apelido imediato: Timóteo.
Quase ninguém sabia o verdadeiro nome, era Timóteo pra cá, Timóteo pra lá. Nem ele fazia questão de ser Clóvis.
Até que um dia vem a notícia de que ele havia morrido. Como assim, o Timóteo morreu? Morreu. Mas ninguém soube de nada, morreu do que?
Ninguém sabia, só havia o comentário que o enterro fora no final de semana e por isso não dera tempo de avisar ninguém. Desolação total, puxa… coitado do Timóteo.
Dias depois, quem vem atravessando o pátio da Prefeitura? O Timóteo… para espanto de todos! Mas não tinha morrido?
O Timóteo se desmanchava em rir, ele também tinha escutado a estória da sua própria morte. Alívio geral, era tudo mentira, não passara de um mal entendido.
Anos depois, a mesma estória: Timóteo morreu. Mas de novo? Agora morreu mesmo! Era voz corrente nos corredores da Prefeitura, agora não havia dúvidas, Timóteo tinha partido desta para a melhor.
Qual o que… uma vez mais a estória se repetiu no final feliz: Timóteo estava vivo, sacudido e forte como sempre; as pessoas é que falavam demais. E Timóteo continuava assim, sempre contando as estórias de suas supostas mortes – e ele se divertia!
Ele se aposentou em 1999 e nunca mais se soube dele – vida de aposentado, sabe como é… tem que curtir a tranquilidade do momento.
Semana passada recebi alguns processos para fazer os Decretos de aposentadoria e pensão. Uma surpresa: Timóteo havia falecido, desta vez sem a mínima chance de ser mentira, os documentos estavam todos alí, nas minhas mãos, pude ler direitinho, Atestado de Óbito e tudo.
Mas o Timóteo era tão sabido que para que a morte dele não pegasse ninguém de susto, ele já havia preparado todo mundo duas vezes…
Vou confessar uma coisa: foi com profunda tristeza que fiz o Decreto de pensão para a viúva do Timóteo, quer dizer, do Clóvis… ah, não importa!
Sempre que uma pessoa dessas se vai, fico pensando no sentido da vida,nas peças que nos prega, no orgulho de uns, no desprezo de outros.
Vai lá, querido Clóvis, ocupe o lugar que foi reservado para você – é impressionante como consigo perceber aquele sorrisão que jamais faltou em seu rosto. E cá pra nós… morrer três vezes não é para qualquer um…
Sobre o autor
Reinado Gimenes é servidor municipal desde 1977, sendo um dos funcionários mais antigos do Município de Taboão da Serra, ainda em atividade. Prestou serviços na Câmara Municipal de Taboão da Serra durante 23 anos, na Prefeitura de São Paulo por um ano e atualmente é Diretor na Secretaria Municipal de Governo da Prefeitura de Taboão da Serra. Tem formação acadêmica em Direito e é também Jornalista. Mantém um Blog na Internet neste endereço: http://www.reinaldo-doispontos.blogspot.com.br/
