O cemitério vertical do outro lado da rua

O cemitério vertical do outro lado da rua

24 de abril de 2026

Nas beiradas da Metrópolis

Nas beiradas da Metrópolis

Por Antonio Rodrigues

 

Quando anunciaram a construção de um cemitério vertical do outro lado da rua, a reação da vizinhança da futura necrópole foi um misto de horror, curiosidade e indignação. “Como assim? Um prédio pra defuntos no meio dos prédios onde moram os vivos?”

Apesar de estudos técnicos e econômicos que apontaram o empreendimento como uma opção sustentável e barata para sepultamento em áreas urbanas densamente povoadas como o nosso “formigueiro humano”, a ideia foi recebida como uma falta de respeito à comunidade.

Milhares de moradores subscreveram abaixo-assinados contra a construção do cemitério vertical. Vereadores e lideranças políticas pronunciaram discursos acalorados apelando para a desvalorização dos imóveis do entorno, para o transtorno emocional causado aos moradores, para o impacto dos cortejos fúnebres numa região de trânsito habitualmente já congestionado etc.

Argumento algum, no entanto, foi capaz de sensibilizar as autoridades responsáveis pelo licenciamento do projeto. A falta de espaço para abertura de novas covas e ossuários no único cemitério da cidade foi determinante para autorização de início das obras. “Num território diminuto e densamente povoado como o nosso”, afirmou um Secretário do Prefeito, “a verticalização é a única saída para os vivos e os mortos!”

E assim começou a ser erguida mais uma torre. Porém, já de início chamou a atenção da vizinhança o fato de que o canteiro de obras era o mais limpo e silencioso que qualquer outro em atividade na cidade mais adensada do país, onde edifícios multiplicam-se a cada dia.

Após a discreta inauguração, a contemplação continuada de carros funerários acompanhados pelos cortejos causava certo mal-estar aos vizinhos mais sensíveis durante a caminhada matinal ou pela hora do almoço. Mas, passado o estranhamento inicial, como tudo na vida, aos poucos a vizinhança foi se acostumando, afinal o novo cemitério não lembrava em nada os graves e sombrios “campos-santos” tradicionais: era um prédio moderno, iluminado e asséptico, com um belo jardim e uma fonte na entrada. Parecia mais um condomínio entre tantos, ainda que estranhamente silencioso, apesar de movimentado.

E começamos a notar mudanças interessantes no bairro: nas noites de sexta-feira ou aos domingos à tarde, não se ouviam mais as buzinas dos carros, o tirar de giro das motos ou os pregões dos alto-falantes dos vendedores ambulantes. Talvez movidos por um senso de respeito ou por temor sobrenatural em relação aos mortos, veículos e pessoas agora passavam por ali mantendo o máximo de discrição.

Da varanda do prédio residencial em que morava, defronte ao portão principal do cemitério, nos momentos ociosos passei a observar as pessoas que por ali entravam. Além das ocasionais e raras cenas de comoção que presenciei, vinha muita gente tranquila que ficava um tempo e ia embora tão silenciosamente quanto chegara: um homem de meia-idade e olhar distante, trazendo consigo um arranjo de flores; uma senhora idosa de aparência frágil, vestida de preto e amparada gentilmente por um casal que acompanhava seu caminhar de passos curtos e lentos…

Confesso meio constrangido que a rotina do cemitério vertical começou a me transmitir certa paz, como contraste à feroz agitação cotidiana e consolo ante a fugacidade da vida, pois, no prédio em frente do meu, a morte parecia perder um pouco da sua aura espectral, confundindo-se com o dia a dia e a paisagem urbana.

No final das contas, o cemitério tornou-se o exato reverso da medalha da existência aqui no bairro dominado por condomínios verticais: deste lado da rua, a transitoriedade da vida encaixotada em apartamentos diminutos, confinados lado a lado, uns sobre os outros; do outro lado, o descanso eterno dentro de nichos igualmente compactos e empilhados.

Do nosso lado da rua, a vida segue de maneira vibrante ou melancólica. Uma vez ou outra a celebramos no salão de festas onde entoamos canções, dançamos, comemos e bebemos ruidosamente até a exaustão, talvez para esquecer ou protestar contra a imobilidade absoluta e o silêncio definitivo que nos aguardam em algum dos compartimentos numerados num dos pavimentos do prédio do outro lado da rua.

 

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