As desigualdades sociais também estão na prática da atividade física

As desigualdades sociais também estão na prática da atividade física

27 de agosto de 2026

Claudia Funari

Claudia Funari

Jornalista

 

Morar na periferia de grandes centros urbanos, trabalhar por 8 horas, ir para o trabalho e voltar para casa de transporte coletivo e se você ainda for mulher, tá aí o quadro quase perfeito para não conseguir praticar atividade física no tempo livre.

E não é o nosso senso comum que nos leva a essa afirmação. A conclusão é de um estudo feito pela USP, que acompanhou, durante 10 anos, um grupo de 978 moradores da região metropolitana de São Paulo. O artigo foi publicado em maio de 2026 em uma *revista científica internacional.

Enquanto homens brancos, com alta escolaridade se exercitam cada vez mais, mulheres de minorias raciais com baixa escolaridade apresentam os menores índices de atividade física no tempo livre e de lazer.

Na primeira fase da pesquisa a prevalência de atividade física no tempo livre era de 51% entre homens brancos com escolaridade mais avançada e de 29% entre mulheres, negras, pardas, asiáticas e indígenas de baixa escolaridade. Na terceira fase, dez anos depois, as porcentagens subiram para 65% e 39%, respectivamente, ampliando o número de pessoas que passaram a se exercitar em seu tempo livre, mas também aumentando a desigualdade entre os dois grupos.

Podemos facilmente pensar em uma série de motivos que levam essas mulheres a se afastarem das atividades físicas. Geralmente, são elas que dão conta dos serviços domésticos, do cuidado com os filhos, com a alimentação da família, para ficarmos no que se passa dentro de casa.

Agora, dependendo de onde ela mora, o simples fato de sair para caminhar demandará uma série de cuidados. Se a mulher estiver sozinha, provavelmente levará em consideração qual o trajeto mais seguro, se tem movimento, iluminação, terá que tirar o relógio, o celular, a aliança. Não que o homem não tenha que tomar os mesmos cuidados, mas convenhamos, a mulher é um alvo bem mais fácil.

E não dá para negar o estado de insegurança que vivemos na região metropolitana de São Paulo e principalmente em bairros periféricos. Depois de um dia de trabalho, ou mesmo pela manhã, quando se sai para caminhar queremos também espairecer, gozar dos benefícios que a atividade física produz, porém fica tudo muito mais difícil e complicado se você estiver se sentindo inseguro.

Temos ao menos dois fatores desafiadores, o tempo escasso e a insegurança. Além disso, sair do sedentarismo pode depender das experiências que a pessoa teve ao longo da vida, do apoio que ela recebe da família, dos amigos, além da consciência de que a atividade física terá uma influência decisiva na sua saúde e no seu bem-estar.

Ou seja, para muitas pessoas não é apenas questão de força de vontade, mas de vencer uma série de obstáculos quase intransponíveis. Por isso, é preciso haver condições para que as pessoas se exercitem regularmente, precisamos de políticas públicas de saúde voltadas à promoção da atividade física capaz de atender um número maior de pessoas e essa política deve incluir locais seguros.

Hoje nós já temos uma série de políticas públicas quando o assunto é oferta da prática de atividade física, o problema é que essas políticas estão sempre subdimensionadas e atendem uma minoria, é como se fosse um luxo para poucos, são incapazes de atender toda a população que necessita. E essa população cresce a cada dia, porque o Brasil está envelhecendo e quanto maior a idade, maior a necessidade da atividade física para uma vida saudável.

As comprovações científicas são robustas sobre o impacto da inatividade, ou seja, do sedentarismo na saúde física e mental. As prescrições de atividade física estão cada dia mais rotineiras nos consultórios médicos tanto para prevenção, controle e para o tratamento de uma série de enfermidades.

Assim como é necessário escola para todos, precisamos de atividade física para todos, principalmente nas regiões metropolitanas, caso contrário as pessoas que já são vulneráveis, tornam-se ainda mais vulneráveis, por não se exercitarem com a constância necessária para a proteção da sua saúde e de seu bem-estar físico e mental.

Se quiser saber mais sobre a pesquisa é só acessar: International Journal of Behavioral Nutrition and Physical Activity.

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