O amor não basta
Depois de mais de 20 anos na causa animal, aprendi uma verdade que ainda incomoda: o problema nunca foi falta de amor pelos animais. Foi a falta de políticas públicas capazes de enfrentar, de verdade, um problema que não pode continuar sendo colocado nas costas de poucos.
O protetor independente conhece essa realidade. É o telefone que toca de madrugada, o animal atropelado, a ninhada abandonada, o cachorro em situação de maus-tratos, o gato ferido. E quase sempre vem a mesma frase: “Você é da causa animal, pode ajudar?”
E nós sempre ajudamos de alguma maneira.
Porque não conseguimos simplesmente virar as costas.
Mas é justamente aí que começa um dos maiores problemas da proteção animal: quanto mais o protetor faz, mais esperam que ele faça.
Se existe abandono, chamam o protetor. Se há um animal ferido, chamam o protetor. Se alguém não quer mais seu animal, chamam o protetor. Se falta atendimento veterinário, estrutura ou acolhimento, novamente recorrem a quem já está sobrecarregado.
Só que é preciso dizer claramente: protetor independente não é serviço público.
Não temos orçamento, equipe, hospital, ambulância ou recursos infinitos. Muitas vezes, temos apenas nossa própria renda, uma pequena rede de solidariedade e a disposição de assumir mais uma vida, mesmo quando já não existe espaço, dinheiro ou energia.
E existe um custo que quase ninguém vê.
O custo emocional. O financeiro. O familiar. O desgaste de acumular dívidas, noites sem dormir e a culpa por não conseguir salvar todos.
Existe também uma romantização perigosa do protetor como “herói”. Mas quase ninguém pergunta quanto custa viver permanentemente tentando apagar incêndios.
Dificilmente se fala de proteção animal sem falar de renúncia. Renunciamos a momentos de lazer. Viagens se tornam raras. Como viajar com tantos animais dependendo de nós em casa?
Há pelo menos 11 anos, não consigo viajar com minha família no Natal ou na virada do ano. Os fogos de artifício são um terror para cães e gatos. E é contraditório: muitas das mesmas pessoas que ligam desesperadas porque um animal está em pânico, correndo pelas ruas, também soltam rojões.
A sociedade e o poder público já sabem quais são os problemas que precisam ser enfrentados. Reivindicamos as mesmas medidas há muitos anos. Ainda assim, faltam regras efetivamente cumpridas e fiscalização que produza resultados concretos. Quando há alguma ação, muitas vezes ela parece servir mais para gerar engajamento na internet do que para resolver o problema.
Não é falta de amor. É excesso de responsabilidade concentrada em poucos.
Resgatar um animal salva uma vida. Mas uma política pública eficiente pode impedir que milhares precisem ser resgatados.
É preciso falar de castração, identificação, educação para a guarda responsável, fiscalização, combate ao abandono, atendimento veterinário acessível, adoção responsável e responsabilização de quem pratica maus-tratos.
O poder público precisa agir: dar suporte, conscientizar, fiscalizar e punir quando necessário.
Enquanto isso não acontecer, continuaremos enxugando gelo.
E ninguém consegue enxugar gelo para sempre. A gente adoece.
A causa animal precisa amadurecer. Precisamos sair da lógica de que proteger significa apenas recolher, tratar e doar. Precisamos ocupar os espaços de decisão, discutir orçamento, fiscalizar governos, acompanhar projetos, cobrar resultados e, principalmente, conhecer as propostas de quem pretende nos representar — não apenas as fotos bonitas durante uma campanha.
Pesquise. Pergunte. Procure saber: seu candidato tem animais adotados? Quantos são vira-latas ou foram retirados de situações de exploração e criadores clandestinos? Qual é a história dessa pessoa na causa animal? Qual o prestígio e a confiança que conquistou entre aqueles que vivem essa realidade diariamente?
Somos uma rede. Nós nos conhecemos e sabemos quem está de verdade na causa.
Essas são perguntas necessárias porque a proteção animal não pode ser apenas discurso de campanha. Ela precisa aparecer em atitudes, propostas e compromisso permanente.
Depois de tantos anos, continuo acreditando que cada vida importa. Continuo acreditando na militância e na transformação.
Mas aprendi que amor sozinho não sustenta uma causa.
Amor resgata. Amor acolhe. Amor cura.
Mas política pública transforma realidades.
E, enquanto ela não existir de forma séria e permanente, protetores continuarão fazendo o impossível.
Só não podemos mais aceitar que esperem de nós o impossível como se fosse nossa obrigação.
Protetor independente não é herói.
É cidadão.
E cidadão também tem limite.
O TABOANENSE
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