A luta não termina nas urnas
Tem se tornado cada vez mais comum assistir ao protagonismo da causa animal no discurso de políticos que, em alguns casos, são alvo de denúncias envolvendo esquemas de castração e outras ações apresentadas como grandes feitos em defesa dos animais. Também vemos imagens de resgates transformadas em espetáculos de autopromoção, enquanto, longe das câmeras, protetores independentes e abrigos assumem a responsabilidade pelos animais resgatados, muitas vezes sem apoio, acompanhamento ou sequer uma visita posterior de quem apareceu como herói.
Quem vive os bastidores da proteção animal conhece essa realidade. Sabe que resgatar é apenas o começo. Depois da foto, do vídeo e da repercussão nas redes sociais, vêm as despesas com alimentação, consultas veterinárias, exames, medicamentos, castrações e, principalmente, a responsabilidade de garantir que aquele animal tenha uma vida digna. É justamente nesse momento que muitos dos supostos protagonistas desaparecem. Porém, essa afirmação não é surpresa pra ninguém.
O mais desolador é perceber que nem sempre denúncias divulgadas pela imprensa, questionamentos públicos ou investigações são suficientes para impedir que determinados candidatos sejam reeleitos. Mesmo quando há informações que merecem atenção e apuração, parte do eleitorado parece ignorar os alertas. A causa animal, então, corre o risco de se transformar em um instrumento eleitoral já que rende curtidas, votos e visibilidade, mas nem sempre se converte em políticas públicas efetivas.
É por isso que o resultado das urnas, neste 25 de outubro de 2026, representa, para mim, mais do que uma vitória política. Após tanta mobilização, há a esperança de que o Brasil comece a virar uma página e de que a democracia também seja capaz de abrir espaço para quem historicamente teve sua voz ignorada. Celebro a escolha de um projeto de governo que apresentou propostas para a causa animal e que nos permite acreditar na possibilidade de avanços concretos.
Fico feliz pelo meu país, pela minha causa e pelos milhares de animais domésticos e silvestres que dependem de decisões políticas tomadas por seres humanos. Celebro a possibilidade de barrar retrocessos, de questionar projetos que ameacem a proteção animal e de cobrar políticas que coloquem a vida acima dos interesses econômicos e eleitorais. Questões que com outro resultado nas urnas, certamente, dificultaria nossa luta.
A proteção dos animais não é uma pauta menor, tampouco um assunto que deva aparecer apenas em períodos de campanha. A Constituição Federal, em seu artigo 225, estabelece o dever do poder público e da coletividade de defender e preservar o meio ambiente e determina que sejam vedadas práticas que submetam os animais à crueldade. A Lei nº 9.605/1998, por sua vez, prevê sanções para atos de abuso e maus-tratos contra animais. Portanto, proteger a vida animal não é favor de político algum: é uma responsabilidade que encontra fundamento na legislação brasileira.
Agora, precisamos transformar a esperança em compromisso. Queremos programas permanentes de castração, atendimento veterinário acessível, fiscalização efetiva, combate aos maus-tratos, transparência na aplicação dos recursos públicos e apoio a quem está diariamente na linha de frente. Queremos políticas que sobrevivam às eleições e que não dependam da imagem de um político para continuar existindo.
Ontem, sinti alívio e alegria. Hoje, volto a cobrar providências. Não entregamos um cheque em branco a ninguém. A confiança depositada nas urnas não elimina o dever de fiscalizar; pelo contrário, aumenta a responsabilidade de quem foi eleito e de quem escolheu acreditar.
A causa animal precisa ocupar espaços de decisão por mulheres que são a maioria que coloca realmente a mão na massa, participar da construção das políticas públicas e ser ouvida por quem governa. Não queremos apenas ser lembradas em discursos. Queremos resultados, compromisso e respeito. E estaremos atentas para cobrar cada promessa feita.
Sou Cynthia Gonçalves: escritora deste blog, esposa, mulher, filha, protetora, lésbica e militante da causa animal. Tenho orgulho de fazer parte do exército de pessoas que foram às ruas, defenderam a democracia e acreditaram que é possível construir um país mais justo, inclusivo e comprometido com a vida.
Porque a nossa luta nunca foi apenas por cães e gatos. É também por justiça, dignidade, responsabilidade pública e pelo direito de existir sem que a vida, humana ou animal, seja tratada como moeda de troca.
A vitória nas urnas renova a esperança. Mas é a cobrança cotidiana que transforma promessas em conquistas.
Redação
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