“Quando eu vim do sertão, seu moço, do meu Bodocó,
A malota era um saco e o cadeado era um nó”
Luiz Gonzaga
Quando li pela primeira vez o romance “As Vinhas da Ira”, de John Steinbeck, tinha eu 12 anos. Passei bom tempo cobiçando aqueles dois exuberantes volumes de capa dura, azuis-escuros com inscrições douradas, recém editados pela Abril Cultural e sedutoramente expostos à venda na banca de jornal do Pé Quente.
A banca era a mais bem abastecida e movimentada do Pirajuçara. Além dos últimos lançamentos editoriais, ali também se fazia apostas de jogo do bicho, daí o apelido do dono, o “Pé Quente”. Instalada em frente ao Supermercado Nakamura, estava no caminho diário de ida e volta à Farmácia e Drogaria Checchin, onde comecei trabalhar aos 11 anos.
Num fim de tarde inesquecível comprei os livros com parte do ½ salário-mínimo mensal recebidos na farmácia. Corria o ano de 1982 e tudo acontecia no fervilhante Ponto Final do Pirajuçara, no Jardim Santa Cruz. Eu cursava a 6ª série e a leitura era a janela de que dispunha para conhecer o mundo e tentar descobrir meu lugar nele.
Ler “As Vinhas da Ira” na entrada da adolescência contribuiu para definir quem eu me tornaria na idade adulta. A obra-prima que rendeu o “Prêmio Pulitzer de Ficção” a Steinbeck, em 1940, conta a saga dos Joads, uma família de pequenos fazendeiros empobrecidos e endividados por causa da seca prolongada e da falta de trabalho causada pelo processo de mecanização agrícola nos EUA.
Após perder a fazenda por causa de dívidas com o banco, os Joads têm de abandonar a terra onde viveram e trabalharam por gerações. A família sai do Oklahoma rumo à Califórnia a bordo de um velho calhambeque – um sedan Hudson Super Six 1926 com carroceria improvisada e vários problemas mecânicos – no qual se amontoam 13 pessoas, um cão e mais os pertences da família. No percurso, os Joads passam a viver em acampamentos precários improvisados ao longo das estradas, sujeitando-se à fome, aos baixos salários, à violência dos empregadores e da polícia, à desagregação da família e humilhações de todos os tipos.
Embora ficcional, este clássico da literatura retrata os efeitos reais da “Grande Depressão” (1929-1939) sobre a vida dos pequenos agricultores da região central dos EUA (“Midwestern region”). Tal qual no romance, ainda que alguns poucos migrantes tenham encontrado trabalho na indústria do petróleo, no comércio ou na construção civil do estado da Califórnia durante a década de 1930, a maioria tornou-se “seguidor de colheita” (“follow-the-crop”), espécie de “boia fria”, substituindo trabalhadores mexicanos e filipinos nos pomares e plantações de algodão.
Os “okies”, como eram chamados os migrantes, foram submetidos a longas jornadas de trabalho e baixos salários. Viviam em condições de extrema pobreza, morando em favelas (“shantytowns”) formadas por barracos de madeira, lata ou papelão, erguidas às margens de rios, canais de irrigação e terrenos baldios. “Okie”, termo originalmente usado para designar pessoa nativa ou residente no Oklahoma, com a migração em massa tornou-se uma forma genérica e pejorativa para referir-se a todos os migrantes pobres e famintos oriundos do Oklahoma, Texas, Arkansas, Missouri, Kansas, Nebraska, Colorado e das Dakotas.
No calvário da Família Joad fugindo das tempestades de poeira e da miséria do Oklahoma; na migração em massa à procura de trabalho e vida digna na Califórnia; nas humilhações impostas pelos que se aproveitavam da vulnerabilidade dos retirantes, pude entrever e refletir sobre as dificuldades enfrentadas na minha quebrada. Em 1982, no Jardim São Salvador e adjacências predominavam famílias de migrantes oriundos do Nordeste, a exemplo de meu pai e de muitos de nossos vizinhos, os quais antes do meu nascimento haviam chegado a São Paulo em busca de emprego e de uma vida melhor.
Desterrados pela seca ou por falta de trabalho, formavam um exército de mão de obra barata para a construção civil e outras atividades que exigiam baixa qualificação profissional; viviam em condições precárias nas periferias da Capital e eram alvo de preconceitos odiosos, a começar pela denominação genérica de “baianos”, independentemente do Estado de origem. Eram “paus de arara”, “cabeças chatas” que nas ruas barrentas do Vale do Pirajuçara vislumbravam os mesmos sonhos acalentados pelos “okies” de “pescoço vermelho” (“red neck”).