MASP traz ao Brasil primeira exposição de Rosa Elena Curruchich, artista maia que pintava em pequenas telas
O MASP apresenta, a partir de 30 de outubro, a primeira exposição individual no Brasil de Rosa Elena Curruchich, artista maia kaqchikel que registrou em pequenas pinturas cenas do cotidiano, das festas e das tradições de sua comunidade na Guatemala.
A mostra “Rosa Elena Curruchich: Crônicas de Comalapa” reúne 78 obras produzidas entre as décadas de 1980 e 1990 e poderá ser visitada até 4 de abril de 2027.
O tamanho reduzido das pinturas tem uma história que vai além da estética.
Em San Juan Comalapa, cidade natal da artista, a pintura era durante muito tempo uma atividade associada aos homens. Como os trabalhos eram vendidos principalmente fora da comunidade, Curruchich encontrou nas telas pequenas uma maneira de manter sua prática mais discreta e facilitar o transporte das obras.
Ela chegou a levar as pinturas embrulhadas em tecidos usados para carregar tortilhas quando saía da cidade para vender alimentos.
Arte como memória de uma comunidade
A produção de Curruchich atravessou um dos períodos mais violentos da história recente da Guatemala. A artista viveu durante a guerra civil que marcou o país entre 1960 e 1996 e produziu parte importante de sua obra em meio à violência contra populações indígenas, especialmente durante o genocídio ocorrido no início dos anos 1980.
Ao desafiar as convenções de gênero e conquistar espaço em um mercado de pintura predominantemente masculino, também enfrentou resistência de outros artistas de Comalapa. As reações contra seu trabalho contribuíram para sua saída da cidade natal e para a produção de grande parte de suas obras durante o exílio.
Neta do pintor Andrés Curruchich, considerado fundador da tradição de pintura de cavalete entre os kaqchikel de Comalapa nos anos 1930, Rosa Elena é considerada pioneira entre as mulheres dessa tradição.
Suas pinturas registram atividades rurais, comércio, vida familiar, cerimônias religiosas, festas e procissões. Os têxteis tradicionais, especialmente os huipiles, vestimentas femininas tradicionais mesoamericanas, aparecem com frequência e influenciam diretamente as cores utilizadas pela artista.
Pinturas que também contam histórias por escrito
As obras foram inicialmente concebidas em telas maiores, nas quais Curruchich reunia diferentes cenas da vida comunitária. Depois, a própria artista recortava as telas e, com a ajuda da irmã, Pilar Curruchich, transformava cada trecho em uma pintura individual.
As molduras também fazem parte desse processo. Produzidas com madeiras encontradas na região, elas têm formatos irregulares e integram a composição das obras.
Outro elemento chama atenção: na parte inferior das pinturas, a artista escrevia pequenos textos de sua autoria. As anotações geralmente descrevem a cena retratada, dão título à obra e levam sua assinatura.
“Cada obra de Rosa Elena Curruchich traz, na parte debaixo da tela, um pequeno texto de sua própria autoria, geralmente descritivo, que dá título à pintura e onde ela também assina. Há uma relação entre essa prática e os antigos livros maias, que registravam o calendário da lavoura, práticas tradicionais e histórias ancestrais: o texto é tão importante quanto a imagem”, afirma Guilherme Giufrida, curador da exposição.
O cotidiano e as tradições kaqchikel
A exposição foi organizada em oito núcleos: Vidas rurais, Autorretratos, Cotidiano, Religiosidades, Têxteis, Festas, Procissões e Finais de ciclo.
Entre as cenas retratadas estão celebrações organizadas pelas confrarias indígenas de Comalapa, que combinam elementos do catolicismo com práticas de origem maia, além de momentos do trabalho no campo, comércio e vida familiar.
Para Yudi Rafael, curador da exposição ao lado de Guilherme Giufrida, as pinturas preservam aspectos da memória coletiva de Comalapa.
“Entre cenas cotidianas e cerimoniais, as pinturas de Rosa Elena narram as práticas que estruturavam os ciclos da vida individual e coletiva da sua comunidade. Seu trabalho atravessou um período de crise política aguda na Guatemala, marcado pela violência sistemática contra os povos indígenas durante a Guerra Civil, reafirmando a vitalidade da tradição pictórica kaqchikel de Comalapa enquanto uma forma de transmissão e reelaboração da memória”, afirma.
A produção da artista, que morreu em 2005, aos 47 anos, vem sendo revisitada internacionalmente. Em 2024, sua obra integrou a 60ª Bienal de Veneza.
Acessibilidade
As exposições temporárias do MASP contam com recursos de acessibilidade. Pessoas com deficiência e seus acompanhantes têm entrada gratuita.
O museu oferece visitas em Libras e visitas descritivas mediante solicitação pelo e-mail [email protected]. Também há textos e legendas em fonte ampliada e conteúdos audiovisuais com audiodescrição, legendagem e interpretação em Libras.
Serviço
Rosa Elena Curruchich: Crônicas de Comalapa
Quando: 30 de outubro de 2026 a 4 de abril de 2027
Local: MASP — Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand
Endereço: Avenida Paulista, 1578, Bela Vista, São Paulo
Espaço: Edifício Lina Bo Bardi, 1º e 2º subsolo
Horários: terça-feira, das 10h às 20h; quarta e quinta, das 10h às 18h; sexta, das 10h às 21h; sábado e domingo, das 10h às 18h. Entrada até uma hora antes do fechamento. O museu não abre às segundas-feiras.
Terças-feiras: entrada gratuita, com patrocínio Nubank.
Sextas-feiras: entrada gratuita das 18h às 20h30, com patrocínio B3.
Ingressos: R$ 85 (inteira) e R$ 42 (meia-entrada).
Agendamento on-line obrigatório.
MASP — ingressos e informações https://masp.org.br
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