Otedama: A porta da salvação do imigrante japonês em Via Poá – Parte final

Otedama: A porta da salvação do imigrante japonês em Via Poá – Parte final

24 de julho de 2026

Nas beiradas da Metrópolis

Nas beiradas da Metrópolis

Por Antonio Rodrigues

“Uma criança nascida no navio de imigrantes, gradua-se”
(Ikubetsushun Miyasaka)

No começo do Século XX, a ligação entre a Vila Poá e os Bairros de Pinheiros e Santo Amaro era feita de forma rústica, frequentemente utilizando barcos ou pontes precárias instaladas em meio às várzeas e trilhas de boiadas que cruzavam o Rio Pinheiros. Pouco depois da chegada de meus avós à região, foram feitas melhorias para travessia sobre o Pinheiros nos pontos onde hoje estão as Pontes Eusébio Matoso e João Dias, permitindo a passagem de carroças e carruagens. Meu avô Mamoru enxergou uma oportunidade: além do cultivo da terra com minha avó e meu pai, começou a oferecer carretos para transporte das hortaliças do Vale do Pirajuçara até os Mercados de Pinheiros e de Santo Amaro.

Assim, após a entrega de mais uma carga na CAC (Cooperativa Agrícola de Cotia) e a retirada de encomendas no Mercado, Mamoru voltou à botica, conforme combinado, e encontrou Satoshi inconsolável diante da impossibilidade de aviamento da receita transcrita na porta encardida. Por sorte (ou destino?), meu avô conhecia o Dr. Marcelo Guedes dos atendimentos de saúde periódicos prestados aos imigrantes japoneses residentes em Vila Poá. Sabia que o médico morava ali pertinho, na rua aos fundos da Igreja de Nossa Senhora de Monte Serrat. Não foi difícil encontrá-lo. Dr. Marcelo os atendeu com solicitude. Meu avô, que se comunicava muito bem em português, contou a história e o médico lembrou-se perfeitamente do atendimento ao dado ao menino Yuji na tarde anterior, durante a parada imprevista a caminho do Instituto Pinheiros. Compreensivo, o médico redigiu uma nova receita.

De volta à botica, os okinawenses aviaram a receita e partiram. Chegando à paineira, vendo o cansaço de Satoshi e as condições do cavalo que ficara amarrado, sem água ou alimento, desde a noite anterior, a convite de meu avô o animal foi atrelado à carroça. Acomodado na boleia, comovido pela ajuda e animado por poder, depois de tanto tempo, conversar em seu próprio idioma com outro alguém que não sua esposa, Satoshi ‘abriu o coração’ durante o percurso, confidenciando ao conterrâneo detalhes de sua desdita: a morte da filha; a dívida com o arrendador da terra pela venda do cavalo e da carroça; a tristeza de Ushi; o medo de perder outro filho…

Logo que avistou a humilde casinha às margens do Pirajuçara, Satoshi desistiu da marcha picada da égua e saltou da carroça para ir correndo com o embrulho nas mãos. Antes mesmo de chegar à tapera para desatrelar o cavalo, meu avô presenciou a cena que mudaria o destino dos Tamashiro, dele próprio e também o meu. Yuji e Ushi, sentados no quintal, cantarolavam uma canção tradicional de acompanhamento do jogo de otedama: “Ni-din-go, ni-din-go, To-to-to ha-re ha-re ha-re”. Os saquinhos coloridos eram lançados para o alto e apanhados de volta na altura do umbigo.

Satoshi aproximou-se e abraçou o filho. Ushi, encostada no batente da porta arrancada pelo marido, silenciosamente, chorava e sorria a um só tempo, sustentando nas mãos o pacote com os remédios que o garoto parecia não precisar mais…

A cena sensibilizou meu avô. Um misto de alegria e vergonha por presenciar a intimidade daquela explosão de afeto familiar. O drama despertara-lhe dó e admiração por aquele pai e marido amoroso, um verdadeiro herói digno de reverência. Despediu-se com um aceno e retomou seu caminho ‘matutando’ sobre o ‘causo’. Mamoru era do tipo que não acreditava em coincidências. Para ele, o encontro com Satoshi só podia ser resultado da intercessão de Hinukan, Deus do fogo e Protetor do lar na religião tradicional okinawana, ao qual minha família também dedicava suas preces.

No dia seguinte, no regresso de um outro carreto, parou na casa dos Tamashiros para saber da saúde do menino. Foi recebido com alegria e gratidão. Ushi contou-lhe que no dia anterior Yuji despertara no final da tarde, logo após o pai ter saído às pressas carregando a porta com a inscrição da receita. O menino mostrou-se mais disposto ao receber os saquinhos de otedama encontrados no embornal do pai, animando-se em aprender a brincadeira com a mãe. Nesta noite, o filho dormiu melhor e, pela manhã, com Ushi disfarçando a preocupação com o paradeiro do marido, Yuji aceitou alimento como condição para brincarem juntos no quintal. Foi quando Satoshi e Mamoru os encontraram. Desde então, Yuji não tinha dado mais ‘sinal de febre’ e voltou a se alimentar normalmente.

Enquanto preparavam o chá, Satoshi contou que a família mudaria para Cotia assim que conseguissem resolver o trato da parceria. Meu avô, com muita cautela, perguntou-lhe se não gostaria de trabalhar com ele no serviço de carroceiro, afinal, a demanda aumentava a cada dia e, sozinho, Mamoru ‘já não dava conta’ das viagens.

O resto é história. Dois anos depois, compraram em sociedade uma segunda carroça e uma parelha burros para transporte de carga. Em 1936, ampliaram os serviços ao inaugurar a linha regular de tilburis “Butantã – Largo de Pinheiros” e, em 1940, já contando com 17 empregados, ganharam a concessão da Prefeitura de São Paulo para operar os serviços de transporte de mercadorias dentro do Mercado de Pinheiros.

Com os negócios a prosperar, as Famílias Uehara e Tamashiro se instalaram em duas amplas casas que mandaram construir, uma ao lado da outra, na Rua Santa Luzia, na época a parte mais urbanizada da Vila Poá. Yuji foi o primeiro Tamashiro letrado em português e, aos 12 anos, já ajudava na escrituração dos negócios. Pouco tempo depois, ‘tocando a firma’ ao lado de meu pai, Yujiro foi o grande responsável por convencer minha família a investir na educação formal ‘deste que vos fala’ e o grande incentivador de meu ingresso na Faculdade de Direito. Tudo isso, como gostava de lembrar o vovô Mamoru, meu prezado Dr. Antonio, ‘por causa de uma porta’.

O tempo voara. O sol já começava a se pôr detrás da colina da Vila Iasi e, finalmente, ouvimos a voz do escrevente de sala apregoando a minha audiência.

Mais conteúdos deste colunista

Nas beiradas da Metrópolis

Nas beiradas da Metrópolis

Por Antonio Rodrigues

Ver todos os artigos de Nas beiradas da Metrópolis
Publicidade
Publicidade