“Relâmpagos e pequenos raios que dissipam para
todos os lados no meio do mar de árvores”
(Nenpuku Sato)
Quando Ushi levantou-se, preocupou-se que o marido tivesse saído sem ter se alimentado; ainda bem que levara a marmita. O pequeno Yuji dormia um sono pesado e parecia febril. A lembrança da filha agonizante foi inevitável. Levantou-se apressadamente e foi apanhar ervas no quintal para fazer um chá e, enquanto preparava a beberagem do menino, fez uma oferenda à Hinukan, guardião do lar e da saúde da família, colocando um copo d’água fresca diante do queimador de incenso enquanto murmurava uma prece.
Se o que aconteceu a seguir foi um milagre, obra do destino ou uma mera e feliz coincidência, fica a juízo de cada um. Certo é que por volta do meio-dia, enquanto Satoshi costurava os saquinhos de otedama, angustiada pela saúde do filho que ainda não saíra da cama, Ushi ouviu um trotar próximo da chácara e avistou a charrete conduzida por um homem de avental branco sobre o paletó escuro. A mulher não sabia, mas quem conduzia era o Dr. Marcelo Guedes, sanitarista itinerante do Serviço de Assistência aos Imigrantes, oferecido pela ‘Secretaria da Agricultura, Comércio e Obras Públicas do Estado de São Paulo’. O médico estava a caminho do Instituto Pinheiros, a pouco mais de dois quilômetros dali, no trecho da estrada que futuramente seria denominada Avenida Dr. Paulo Ayres, para atender os imigrantes instalados nas Vilas Poá e M’Boy. O Instituto cedera ao Estado parte de suas dependências para realização dos atendimentos de saúde periódicos.
Mesmo sem saber que conduzia a charrete, Ushi agradeceu mentalmente à Hinukan e disparou em sua direção com um pressentimento de que poderia encontrar algum socorro para o filho. Apesar dela não falar a língua portuguesa e o Dr. Marcelo tampouco entender o japonês, o idioma não foi empecilho para que após poucos minutos de interação o médico compreendesse a situação e fosse imediatamente examinar o menino. Concluindo pela necessidade de medicação urgente, ao vasculhar sua valise, Dr. Marcelo constatou ter esquecido de trazer o talão de receituário.
Com dificuldade, Ushi entendeu que o médico pedia para acompanhá-lo até o local onde poderia receitar, conseguindo responder que não podia deixar a criança sozinha e não poderia levá-la consigo naquele estado. O médico concordou e, como não havia no pobre casebre uma caderneta, fotografia ou qualquer outro pedaço de papel, decidiu lavrar a prescrição no lado interno da porta da cozinha, uma prancha de eucalipto lisa e clara, única superfície adequada à escrita. Não teve dificuldade para grafar na madeira macia, com a caneta tinteiro ‘bico de pena’, a fórmula e a posologia da medicação. Ao concluir a tarefa, esforçou-se para dizer à Ushi que pedisse à alguém para ‘copiar e aviar a receita’. O médico partiu deixando uma Ushi perplexa, tentando compreender como os caracteres indecifráveis gravados na porta poderiam curar a febre do menino.
A tarde foi longa para Ushi; o tempo encompridou-se nos cuidados com o filho adoecido. Para Satoshi, ao contrário, a alegria de surpreender o menino com o jogo de otedama fez o tempo correr célere. No final da tarde, com o sol de dezembro decaindo, Satoshi encontrou a esposa chorando e o filho ardendo em febre. Ushi contou-lhe sobre o atendimento do médico e a escrita na porta. Satoshi não pensou duas vezes. Com ajuda de um porrete retirou do batente a porta e, colocando-a debaixo do braço, voltou ao cavalo, que sequer havia sido desarreado, e voltou pelo caminho que acabara de fazer com destino à botica mais próxima, no Largo de Pinheiros.
Tão logo saiu, o tempo principiou a escurecer e começou a ventar forte. Do céu carregado de nuvens escuras o temporal de verão desabou, com relâmpagos e trovoadas ensurdecedoras, apanhando Satoshi em campo aberto. Segurando as rédeas com a mão direita e mantendo a porta embaixo do braço esquerdo, tentou avançar sob o aguaceiro e a enxurrada. As rajadas de vento arrebataram-lhe a porta várias vezes, forçando-o a abrigar a si e ao cavalo num desvão de pedras próximo ao Caxingui.
A noite já ia alta quando o tempo amainou. Satoshi retomou o caminho para constatar logo adiante que o Rio Pinheiros transbordara e cobrira completamente a ponte de madeira construída pela ‘Light and Power Company’. Por precaução, optou por deixar o cavalo cansado e faminto amarrado na paineira alta que ficava a uma distância segura da margem do rio. Tentou atravessar a ponte submersa carregando a porta na cabeça, mas num ponto em que a água chegou à altura do peito não resistiu à correnteza e foi arrastado rio abaixo, agarrado à porta, por uns 20 metros, até que por milagre (ou por destino, como dizia meu avô sempre que contava o ‘causo’) foi empurrado à margem oposta. Deitado na lama, com a porta aferrada ao corpo, enquanto recuperava o fôlego Satoshi só conseguia pensar no filho doente.
Amanhecia quando chegou ao Largo da Batata coberto de lama da cabeça aos pés, com a roupa rasgada e escoriações na pele. A botica ainda estava fechada. Exaurido e com o corpo machucado e dolorido, deixou-se cair à porta da botica. Sucumbiu ao sono encolhido dentro da roupa suja e molhada. Acordou com os ruídos da abertura do comércio. A botica ainda não abrira. Levantou-se e caminhou como sonâmbulo pela rua, a porta apoiada na cabeça, à procura de ajuda. Foi nessas circunstâncias que meu avô Mamoru Uehara conheceu Satoshi Tamashiro.
Mamoru contava que assustou-de quando viu aquele homem enlameado, mais parecendo ‘asombração’. Parou a carroça e reconheceu no resmungar choroso do homem a sua língua natal, o uchinaguchi. Parou para dar-lhe atenção e, ao compreender o que se passava, propôs ao conterrâneo que se acalmasse; esperasse a botica abrir para aviar a receita e lá o aguardasse. Ele deixaria um carregamento de batatas na Cooperativa Agrícola de Cotia, passaria no Mercado para retirar algumas encomendas e voltaria para dar uma ‘boléia’ à Satoshi até a paineira onde esta havia deixado deixado o cavalo amarrado. Era caminho de volta para meu avô. Esgotado fisicamente e abalado emocionalmente, Satoshi chorava e fazia reverências ao meu avô.
Por volta das 8h, o velho boticário João Elias Aurélio dos Anjos, autorizado por alvará da época do Imperador, deu com o homem ‘intijucado’ na porta de seu estabelecimento, abraçado a uma prancha de madeira encardida. Prestados os esclarecimentos com ajuda de um outro japonês que próximo dali comerciava sua produção de batatas, para seu desespero, Satoshi soube que a prescrição anotada tornara-se um borrão ilegível.