“Imigrantes que fugiram durante a noite relembram as estrelas do campo árido”
(Hyokotsu Uetsuka)
Otedama é um jogo de malabarismo japonês muito parecido com o nosso “jogo de pedrinhas”, também conhecido como “jogo das cinco marias”. É jogado com pequenos saquinhos de tecido cheios de feijão, arroz, pedrinhas ou outros tipos de grãos. O tamanho dos saquinhos varia, mas devem caber confortavelmente na palma da mão. Embora seja um jogo social, o otedama também pode ser jogado sozinho e frequentemente é acompanhado por cantigas tradicionais marcando o ritmo do jogo.
A relação entre o otedama e a esperança de uma família de imigrantes japoneses que chegaram à Vila Poá na década de 1920 eu descobriria na conversa com o impagável Dr. Kazuo Uehara, a quem conheci, em meados de 1997, durante a longa espera para uma audiência na antiga 1ª Vara Distrital do Fórum de Taboão da Serra. Como era frequente naquele tempo, o início do ato processual atrasou por horas, felizmente, a prosa agradável do colega veterano fez com que o então jovem causídico nem se importasse com a demora.
Pelos modos, vestuário e linguajar, Dr. Kazuo perfomava o modelo do advogado do Século XX que já prenunciava sinais de extinção. Falava como a “gente antiga”, com erres vibrantes e vocabulário arcaico. Interpolava expressões coloquiais com brocardos latinos dizendo, por exemplo: “Sua Excelência pauta uma contia de audiências que ‘concessa venia’ é um despotismo!” Simpático, apesar do preciosismo verbal, transmitia simplicidade e inspirava confiança.
Mal nos apresentamos e, sem que eu nada tivesse perguntado, confidenciou ser “membro da Turma de 1951 do Largo São Francisco, dirigida à época pelo saudoso Dr. Brás de Sousa Arruda”. Os cinco anos da graduação, disse ele afetando orgulho, “foi o único período em que residi fora dos limites da Comarca de Itapecerica”. Entre um café na sala da OAB, a imobilidade da saleta de espera e uma esticada de pernas no átrio do Fórum, Dr. Kazuo contou-me que os avós paternos, Mamoru e Tida Uehara, e seu pai, Minoru, eram okinawanos chegados a Santos na primeira leva de imigração japonesa vinda do Porto de Kobe à bordo do Kasato Maru, em 1908.
Após uma década colhendo café na Região da Alta Sorocabana, os Ueharas e mais 19 famílias japonesas deixaram o interior do Estado para começar, em 1919, o cultivo de verduras e legumes no entorno da Capital paulista. Mais tarde, em 1930, da união de Minoru e Helena ? filha de Alice e Raimundo da Silva, casal das Alagoas que trabalhava na olaria da Família Mituzi ? nasceu Kazuo Uehara, vindo à luz na sede da chácara situada no lado mais alto do carreiro que seria denominado “Estrada das Olarias”, no local próximo onde é hoje o “Campo do Guaciara”. Aparentava menos idade que seus 67 anos, “por conta da paciência oriental e nordestina irreverência”, as quais dizia ter herdado do pai e da mãe.
Tendo monologado por algum tempo, na prorrogação do silêncio que se seguiu à conclusão da história familiar percebi que o Dr. Kazuo me fitava, parecendo à espera de que “puxasse assunto” para continuação da conversa. Convidado pelo olhar do meu interlocutor, mas com genuíno interesse, perguntei-lhe como um filho da primeira geração de imigrantes japoneses, trabalhadores da lavoura, formara-se advogado na mais prestigiada faculdade de Direito do país. Ele agradeceu a pergunta com um sorriso ligeiro e “pediu licença” para contar um “causo”.
A precisão das datas e nomes, a fluência das frases bem elaboradas e a riqueza de detalhes sugeriram-me não ser a primeira vez que ele contava aquela história. Falta-me talento para reprodução escrita da saborosa narrativa oral do Dr. Kazuo. Ousar transcrever literalmente a linguagem e o ritmo peculiar da sua fala resultaria num pastiche deselegante e vulgar. Tentarei apenas reproduzir com probidade o conteúdo daquilo que ouvi, repetindo ocasionalmente uma palavra ou expressão peculiares das quais me recordo, porém, consciente dos riscos de traição da memória e de outras armadilhas mentais.
Feitas essas ressalvas, com a palavra o Dr. Kazuo: Meu avô Mamoru contava um ‘causo’ que aconteceu em 1928, antes do meu nascimento. Satoshi Tamashiro e a esposa, Ushi, recém chegados do Japão, foram trabalhar plantando verduras às margens do Córrego Pirajuçara, onde atualmente o Jardim Clementino faz divisa com o Campo Limpo. O casal emigrara de Okinawa com dois filhos e não tinham relação de parentesco ou de amizade com nossa família, que havia deixado ‘Uchinaa-shima’ duas décadas antes. O fatalismo de meu avô creditava à má sorte a perda da filha mais velha do casal Tamashiro, Matsue, aos 7 anos de idade, morta pelo sarampo pouco tempo depois de chegarem em Vila Poá, deixando pai e mãe inconsoláveis, e solitário o irmãozinho Yujiro, de 4 anos.
A labuta não deu trégua ao luto. Fizesse chuva ou sol, Satoshi trabalhava na terra desde o alvorecer até o crepúsculo. Ushi, além de ajudar na horta, era responsável por todo trabalho doméstico e pelos cuidados do filho. A incipiente produção de hortaliças, no entanto, era incapaz de assegurar alguma melhoria na situação de pobreza da família.
Apesar do baque grande causado pela súbita morte de Matsue, Satoshi continuou o cultivo e a venda das verduras no Mercado de Pinheiros, ao qual já não podia, como antes, ir acompanhado pela família porque agora só havia um cavalo para carregar a si e aos cestos. É que, desesperado, vendera a carroça e um dos animais da parelha sem autorização do proprietário, o arrendador da chácara, para custear remédios e melhorar a alimentação da filha durante o tratamento mal sucedido.
As coisas andavam ‘neste pé’ quando num final de tarde Ushi, que jamais reclamava, suplicou ao marido para deixarem Vila Poá e irem embora para Cotia, cidade onde moravam sua irmã, o cunhado e três sobrinhos. Aos prantos, a esposa relatou que não suportava mais viver naquele lugar isolado com a lembrança da filha a lhe corroer.
Além do mais, o pequeno Yuji também andava tristonho e cada vez mais abatido desde a morte da irmã, que era a única criança que lhe fazia companhia desde que chegaram do Japão. De fato, Satoshi notara que o menino já não brincava com ele ao acordar, como antes sempre fazia, e às vezes nem mesmo queria acompanhá-lo no trabalho da horta, um dos passatempos preferidos por ele e pela irmãzinha falecida.
Ushi tinha razão: não existia mais alegria, só trabalho e lamento. Mas o que ele podia fazer? Abandonar a fonte de sustento da família? E como dar um fim à parceria devendo o cavalo e a carroça ao arrendador? Ir suplicar aos parentes da esposa ‘com uma mão na frente e outra atrás’? Adormeceu atribulado nessas cogitações.
Despertou antes do horário habitual e sua primeira visão foi o semblante do filho dormindo na caminha sobre o ‘jirau’ postado ao lado da cama igualmente rústica do casal. Era dia de ir ao mercado e Satoshi levantou-se com cuidado para não acordar a esposa. Não quis fazer o desjejum. Prestes a sair, contemplou novamente o menino adormecido. ‘De estalo’, teve a ideia: quando voltasse, ia ensiná-lo a jogar otedama. Poderiam brincar juntos, mas Yuji também teria algo novo para brincar sozinho. Silenciosamente, foi até ao velho baú onde guardavam as roupas e retirou uns trapos coloridos que estavam ‘socados’ num canto. Junto com a marmita preparada na véspera, ‘botou no embornal’ também a tesoura, agulha e linha.
Não havia clareado o dia. Com os dois cestos repletos de verduras pendurados na cangalha, Satoshi seguiu à cavalo pela velha Estrada de Itapecerica (atual Av. Prof. Francisco Morato) a caminho do Mercado de Pinheiros. Por volta do meio-dia, negociada grande parte das hortaliças, arranjou uma cuia de grãos de milho seco e recolheu-se num canto. Após comer rapidamente, começou a cortar e costurar os saquinhos de otedama. Em pouco tempo estavam prontos e bem acabados. Alegrou-se ao imaginar o filhinho brincando. E sorriu ao pensar que há muito tempo ninguém na família se alegrava.
Aprumou-se, arreou o cavalo que descansava na sombra e tomou o caminho de volta com pressa de chegar cedo. Levava no embornal, além da marmita vazia, os cinco saquinhos coloridos e, no coração, uma esperança difusa num futuro incerto.