Quem assistiu a Odisseia viu que Ulisses passou 7 anos na Ilha de Ogígia, com sua linda Calypso, se alimentando da flor de Lótus e mal percebeu quanto tempo havia passado ali. Podemos fazer um paralelo com o que acontece com muita gente quando o assunto é tempo conectado às redes sociais.
Crianças, adolescentes, adultos, idosos, as redes atraem a todos, elas são viciantes e foram desenvolvidas para ser. Tudo é idealizado, criado e programado para que você se mantenha conectado o maior tempo possível, sua atenção vale ouro.
Acabamos de presenciar o acordo feito pela empresa Meta, dona do Facebook e do Instagram, com a justiça americana. O julgamento encerrou-se rapidamente com um acordo proposto pela Meta de pagar aos Estados americanos 17,1 bilhões de dólares e de realizar algumas modificações em suas plataformas. A Meta assumiu que não cumpriu a legislação americana.
A acusação sustentou que a empresa desenvolveu deliberadamente plataformas viciantes para o público jovem. A Meta teria violado as leis americanas de proteção à infância, coletando e utilizando de formas inadequadas os dados de crianças, enquanto elas usavam os serviços oferecidos pela rede.
Além da indenização bilionária a ação solicitou mudanças nas plataformas quanto às notificações frequentes para fazer com que o usuário retorne a rede, implementação da verificação dos pais ou responsáveis, alteração dos algoritmos de recomendação que são comprovadamente capazes de estimular a liberação de dopamina ou seja da sensação de prazer e recompensa em estar ali, a retirada de filtros que modificam a aparência das fotos e o fim da reprodução automática de vídeos entre outras alterações. Exatamente os pontos que viciam a todos, não só as crianças.
Os mais velhos, que também são impactados com o tempo demasiado conectados às redes, além de não estarem fazendo nada melhor assim como as crianças, são levados ao consumo muitas vezes excessivo e à exposição a centenas de golpes disfarçados de anúncios que induzem a compra de produtos falsos entre outras falcatruas disseminadas nas redes.
São anúncios gerados por IA, que costumam ter como vendedores senhores médicos, com diplomas nas paredes, ou senhores orientais acima de qualquer suspeita que explicam as maravilhas do que vendem, nada é real, nem os garotos propaganda, nem os suplementos ou vitaminas.
É famoso o caso do Dr. Drauzio Varella que tem sua imagem usada e sua fala alterada para vender “medicamentos” que ele jamais indicaria. O Dr. Drauzio tentou entrar em contato por várias vezes com a Meta, para que esse conteúdo criminoso fosse banido da rede, mas o pedido até o momento, segundo ele, não teve eficácia e sua imagem continua sendo usada indiscriminadamente para enganar as pessoas.
O certo é que o excesso do uso das redes sociais e das telas precisam ser debatidos por todos, para que as pessoas tenham mais meios de se proteger e de proteger suas crianças, porque estamos falando de desenvolvimento cerebral, das capacidades cognitivas e emocionais.
Como tudo, a gente precisa ter uma etiqueta de uso digamos educada e consciente. Os mais velhos deveriam ser alertados por amigos e familiares para não acreditarem em anúncios que não possam ser checados, não acreditarem em vídeos, porque eles são criados facilmente por IA.
Ninguém hoje se senta à mesa fumando, algo que já foi tolerado no passado, quando era permitido fumar em restaurantes. O mesmo seria com o celular, pais não deveriam permitir que seus filhos usassem celulares a mesa durante as refeições. Os pais não deveriam usá-los também.
Quando se está conversando com alguém, essa pessoa também não deveria usar o celular ao mesmo tempo. Regras de boa educação poderiam ser o início de uma desintoxicação coletiva. Quem sabe assim, a gente teria alguma chance, de diminuirmos a atenção dada às redes e aumentarmos a atenção dada à nossa própria vida. Afinal, nossa atenção vale ouro.