Acho que foi durante o inverno de 1978 ou 79 porque, na minha lembrança, já tinha escurecido quando a Mãe mandou comprar “mistura” para a janta e me recordo do detalhe (não sei por que) de descer a Rua 10 de Março ouvindo os rádios da vizinhança entoando a “Ave Maria”, naquela época executada pontualmente às seis horas da tarde por praticamente todas as emissoras de rádio AM.
O açougue do Nino ficava no Ponto Final do Pirajuçara, entre a padaria Santa Cruz e a quitanda da Dona Izaura. Pela urgência da demanda, ao chegar no final da rua decidi cruzar a Avenida António de Oliveira Salazar e atravessar o “campão” do Jardim Mituzi (atual Campo do Santos), seguindo pela margem do Córrego Joaquim Cachoeira ao invés de virar à esquerda e ir pela rua da feira de quarta-feira e do Bazar Mami (Rua Euclides Pagani Martins).
O caminho escolhido era o mais curto, mas também o mais ermo mesmo durante o dia. Quem se aventurasse por ali após escurecer tinha de ter cuidado. A Avenida Fernando Fernandes, nascida da canalização fechada do córrego, só surgiria duas décadas à frente.
Escuro e sem calçamento, o trecho da margem no qual o Jardim Mituzi confronta com o Jardim Panorama (exatamente onde hoje está o extenso muro da EE Neuza Demétrio) era um matagal e desbarrancava em vários pontos pela erosão progressiva a cada estação chuvosa. O que sobrava de rua mal comportava a passagem dos raros veículos que se arriscavam na escuridão a despencar córrego abaixo.
Apertando na mão as notas de cinco e dez cruzeiros entregues pela Mãe, contadas no valor exato do quilo de acém sem osso, corria pelo percurso acidentado desviando dos arbustos e tomando algum cuidado para não tropeçar e machucar ainda mais os dedões dos pés, permanentemente esfolados, ou arrebentar os chinelos frequentemente remendados com arame.
“De repente, não mais que de repente”, como no poema de Vinícius de Moraes, “fez-se da vida uma aventura errante”: furtivamente, na direção oposta à minha veloz trajetória, deslocando-se muito lentamente e com as luzes apagadas, aproximou-se a Veraneio cinza. Quando me dei conta, a “barca” estava a poucos metros e, no mesmo momento em que um farol ofuscante foi aceso, ouvi o comando de voz famoso na quebrada:
“Mão na cabeça!”
Congelei instantaneamente e suspendi o fôlego ao perceber o policial com a pistola apontada em minha direção. Aos 8 ou 9 anos de idade, pela primeira vez vivenciava a situação conhecida até então por histórias contadas pelos homens e meninos mais velhos da vila.
Lembro-me de um muro chapiscado ao qual mandaram encostar. Não sei se estávamos mais próximos ao campo ou pouco à frente, na altura da lateral da recém-inaugurada EEPG do Jardim Mituzi (atual EMEF Francisco Ferreira Paes). Colocado de costas para a viatura, braços erguidos e mãos apoiadas no muro, ouvi as frases curtas esbravejadas pelo policial num só jorro enquanto me apalpava a cintura:
“O que ‘cê tá’ fazendo aqui moleque? Pra onde ‘cê’ tá indo? De quem é esse dinheiro na sua mão?”
Apesar de estar a centímetros do meu rosto, o policial falava alto e parecia bravo. Tremendo de medo, eu tive dificuldade em começar a responder, fato que deve ter irritado ainda mais o agente da lei a ponto de ele ficar apertando minha nuca com a boca do cano da arma, forçando minha testa contra a áspera parede.
Na quebrada, mesmo crianças, éramos todos suspeitos. A violência não era novidade para quem vivia no Vale do Pirajuçara. Volta e meia, tiroteios e chacinas locais apareciam no jornal Notícias Populares e no programa de rádio do Gil Gomes. Já presenciara uma perseguição policial seguida de tiroteio na rua de casa. Ali mesmo no campo do Mituzi, não fazia muito tempo, haviam sido “desovados” cadáveres crivados de bala. Num outro episódio, deixaram um defunto pendurado numa das traves…
Era comum a imprensa noticiar (e o Governo do Estado nunca desmentir) supostos confrontos que resultavam em execuções de “marginais” pela temida tropa de elite da Polícia Militar, as “Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar”. Na época, oficiais da ROTA como Capitão Nakaharada e Tenente Conte Lopes eram personagens temidos ou admirados nas periferias da Região Metropolitana, retratados como justiceiros ou heróis pelos jornais e programas sensacionalistas de rádio e televisão.
Segurando o choro, finalmente consegui “cuspir os feijões”:
“Tô indo no açougue. A Mãe deu o dinheiro pra comprar mistura, senhor”.
Fui mandado embora pelo policial com a irônica e autorrealizada advertência de que andar por ali à noite era muito perigoso…
Depois dessa, durante os anos de sobrevivência na quebrada sofreria outras incontáveis abordagens policiais, algumas mais brandas, outras mais violentas, mas o primeiro enquadro a gente nunca esquece.
Antonio Rodrigues do Nascimento