Nascido numa casa fincada na várzea do Córrego Joaquim Cachoeira, bem próximo ao trecho em que as margens fazem a divisa entre os bairros Jardim São Salvador e Jardim Freitas Junior, até os 6 anos de idade meu campo de visão foi absolutamente limitado pelo muro do quintal e pela geografia. Na frente da casa na Rua Santo Antonio, as grades do portão só permitiam ver o outro lado da rua e vislumbrar, à esquerda, o sopé do morro que se erguia a partir da rua paralela à Avenida António de Oliveira Salazar, no outro lado do córrego (Rua Fideralina Gomes de Almeida) e, à direita, um pedacinho da nossa rua rumo ao alto do Jardim Roberto.
Apesar da Rua 10 de Março ficar a menos de 5 minutos de caminhada da Santo Antonio, cortando pelas vielas das Ruas São Geraldo e São Pedro, a mudança da várzea para a encosta da colina, dentro do mesmo bairro, modificou drasticamente minha percepção do mundo: a vista aberta aos fundos do terreno em declive onde fomos morar, na parte mais elevada da rua, abarcava todo o morro que se levanta a partir da margem esquerda do córrego e em cujas encostas estão situados os bairros Jardim Panorama, Jardim Freitas Junior, Jardim Trianon e Jardim Record.
Tão logo nos instalamos no novo endereço, aos 6 anos recém-completos, fiquei fascinado pelos imensos pores do sol que avermelhavam a crista do morro e, nas noites claras, por sua silhueta imponente, mais escura que a própria noite, emoldurada pela luz da Lua e das inúmeras estrelas visíveis quando havia pouca eletricidade nas casas e praticamente nenhuma iluminação pública nas ruas.
Durante algum tempo, tive a certeza de que apesar do mundo ser muito maior do que eu pensava até então, uma das suas extremidades ficava ali pertinho, detrás dos morros do Freitas Junior e Panorama. No meu pensamento mágico, algum dia iria escalá-lo para chegar naquela beirada do mundo e ver a espaço sideral da mesma forma que a tripulação da nave “USS Enterprise”, da série “Jornada nas Estrelas”.
Em 1976, não havia casas no topo do morro do Freitas Junior, a ocupação do Sítio das Madres só aconteceria em meados dos anos 1980. Existia uma plantação bem cuidada no alto do morro, limitada pelas escarpas, voltadas ao São Salvador e Panorama, e pelo bosque de eucaliptos e o matagal que avançavam na direção do São Judas, Trianon e Record.
Durante alguns anos, à distância e com interesse que mais tarde descobriria incomum numa criança da minha idade, acompanhei silenciosamente o cultivo das roças de milho, mandioca e cana no alto do morro. Tornou-se uma rotina secreta conferir diariamente a presença do homem que trabalhava solitário com enxada e facão. Destacavam-se ao longe o chapéu de palha com aba larga e a capa longa de lona amarela. Às vezes, ele empurrava um carrinho de mão.
Nunca soube seu nome, tampouco onde morava, e acho que ele jamais desconfiou da longínqua observação infantil. Algumas poucas vezes pude vê-lo mais de perto, conduzindo o carrinho carregado pela avenida, levando milho, mandioca e cana para deus sabe onde. Era um homem muito branco e envelhecido, inconfundível com seu chapéu de palha e capa amarela.
A fascinação pelo roçado no alto do morro talvez tenha nascido das histórias contadas por nossa Mãe sobre a infância dela passada em Guiricema e São Pedro dos Ferros (MG). Apesar dos sofrimentos impostos pela orfandade precoce (minha Avó morreu quando ela tinha 7 anos de idade) e do trabalho pesado, as memórias incluíam banhos de rio, árvores frutíferas, passeios a cavalo, brincadeiras com animais, festas, comidas etc. Eu menino, idealizava essa vida na roça que me parecia alegre e abundante, em contraste com as agruras e privações do nosso cotidiano na quebrada.
Fato é que ao mudarmos para a Rua 10 de Março, além de ampliar meus horizontes, ganhei mais liberdade. Não havia muro ou qualquer outra fronteira entre o quintal e a rua. Era um contínuo de terra batida. Guias e sarjetas, saneamento básico, calçamento e iluminação pública ainda não socorriam o bairro, mas naquele bem-aventurado ano de 1976 iniciei minha terceira infância num ambiente onde a rua supria faltas em vários sentidos.
Numa época em que o tráfego de automóveis era escasso, a rua pertencia às crianças e aos cachorros. Nela jogávamos bolinha de gude, futebol, taco e travávamos guerras de mamona; brincávamos de polícia-e-ladrão, pique-latinha e queima-bucha; rolávamos pneus velhos e arcos de roda. Para desespero das mães, na primavera apanhávamos e comíamos tanajuras e, nas chuvas de verão, fazíamos diques de lama nas enxurradas…
A maioria de nós não tinha acesso a brinquedos industrializados. Com criatividade e coisas que encontrávamos em casa ou na própria rua, construíamos carrinhos de rolimã e de carretel, pernas de pau e pés de lata; fazíamos pipas com “papel de pão”, colado em armações de bambu com arroz cozido, que empinávamos com linha de nylon tirada e emendada, fio a fio, de sacos de batata ou cebola.
Na nova vizinhança também havia árvores frutíferas às quais tínhamos acesso (nem sempre autorizado…). Os inúmeros abacateiros; a amoreira nos fundos da casa do Seu Clarindo; o tomateiro japonês no quintal da família do Miguel Guerino; a pitangueira na casa do Ledivaldo; a figueira no quintal da Rosângela; o pé de “macaquinho” (uva japonesa) não me lembro bem onde… No nosso próprio quintal tinha um pé de limão rosa que rendeu muita limonada, além de um imenso chuchuzeiro partilhado com o quintal do Seu Eugênio e Dona Maria Ramos, casal de vizinhos baianos ao qual eu e minhas irmãs fomos acostumados a tratar, durante anos, por “Vovô” e “Vovó”.
A Mãe me ensinou a reconhecer verduras nativas que abundavam no entorno, como a taioba e a serralha, e que passaram a reforçar nossa alimentação. Também aprendi sobre as diversas plantas medicinais que podiam ser encontradas nas proximidades, a exemplo da erva-de-bicho, do poejo, do capim-cidreira, da erva-de-santa-maria (mastruz), do sabugueiro e da bardana, às quais minha Mãe recorria para tratar enfermidades ou simplesmente fazer um bom chá. Aprender a conhecer as plantas e seus usos me fazia feliz, principalmente porque a Mãe não escondia seu orgulho ao comentar com a vizinhança essa minha nova habilidade.
E assim passei minha terceira infância sem saber que, tal qual o velho homem que cultivava no topo do morro do fim do mundo, eu convivia com os últimos vestígios bucólicos de um lugar que há pouco tempo ainda era chamado “Vila Poá”.
Antonio Rodrigues do Nascimento