“Fica quieto, menino!” – Parte Final

“Fica quieto, menino!” – Parte Final

21 de outubro de 2026

Nas beiradas da Metrópolis

Nas beiradas da Metrópolis

Por Antonio Rodrigues

Neno era mais um filho da Dona Belisa e devia ter uns 20 e tantos anos de idade quando foi abatido a tiros na porta da venda do Seu Juquinha.*

Na Rua Santo Antônio, a casa dele ficava defronte à nossa. Era uma família com muitos irmãos e, se bem me lembro, todos meninos, sendo ele o mais velho. Até mudarmos para a Rua 10 de Março, eu os via quase todos os dias através do portão de grades da nossa casa.

O marido da Dona Belisa tinha morrido dois ou três anos antes numa outra tragédia suburbana: a caminho do trabalho, ao tentar embarcar no ônibus lotado, caiu e foi arrastado por alguns metros. Desde então, a viúva trabalhava fora o dia todo e, sem rede de apoio, lutava com dificuldades para cuidar da meninada que passava o dia solta na rua.

Os irmãos mais novos do Neno, alguns próximos da minha idade, tiravam sarro de mim porque, ao contrário deles, estava proibido de brincar na rua. Esta liberdade conferia-lhes um status superior, pois, naquela época, a rua era o lugar onde as coisas aconteciam, o principal espaço da sociabilidade periférica (apesar da tentação e dos riscos de ir no embalo da malandragem barra-pesada).

Todos no bairro sabiam que o Neno “fazia função”, como se dizia na gíria de então. Apesar das passagens pela FEBEM e de uma temporada na cadeia, não disfarçava o “berro” na cintura em suas andanças pelo bairro. Depois da sua morte, muito veladamente circulou o boato de que vinha extorquindo, sob ameaça de violência, o dono da venda diante da qual foi baleado.

Ao voltar para casa, esbaforido e sem o Ki-Suco, eu queria contar todos os detalhes do que aconteceu, desde os “pipocos” ouvidos ainda quando subia a escada, na saída para a venda, até a visão do Neno agonizante na porta do estabelecimento, porém, calei-me de imediato ao ouvir a ordem da Mãe:

“Fica quieto, menino!”

O tom imperativo da voz e o dedo indicador em riste colocado sobre meus lábios me assustaram, sobretudo porque percebi nos olhos dela, na inflexão da pronúncia e no gesto, algo entre a preocupação e o medo. Mais por intuição que por raciocínio, compreendi instantaneamente a lição sobre as regras não escritas da quebrada.

Nos anos 1970, a população do Vale do Pirajuçara convivia permanentemente com situações que impunham discrição absoluta como estratégia de sobrevivência: qualquer palavra dita na hora ou lugar errado, ou à pessoa errada, podia colocar em risco a segurança própria e de toda a família.

A tensão gerada pela violência da criminalidade e pela repressão policial fazia-nos andar sobre o fio da navalha: bastava um leve escorregão para sangrar. O silêncio nos protegia. Assim, muito antes de ser apresentado à filosofia da linguagem de Wittgenstein, entendi que “sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar”.

Meses atrás, numa prosa com meu irmão – o bebê que fez 2 anos dias após a execução do Neno e hoje com 50 anos de idade – evoquei certas recordações perturbadoras de nossa infância, inclusive as daquela tarde de 1977. O desejo de compartilhá-las nesta crônica nasceu da esperança terapêutica de que as extraindo definitivamente dos esconsos da memória, tornem-se lembranças inofensivas, ainda que melancólicas.

Antonio Rodrigues do Nascimento
* Nomes fictícios usados para preservar a identidade da vítima e de sua família.

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