“Há homens que lutam um dia e são bons;
Há outros que lutam um ano e são melhores;
Há aqueles que lutam muitos anos e são muito bons;
Porém, há os que lutam toda a vida.
Estes são os imprescindíveis.”
Bertold Brecht
Decidi fazer-me advogado pela crença numa suposta vocação que na escola colegas e professores diziam que eu tinha e, por acreditar que o exercício da advocacia poderia conciliar o “ganha pão” com a luta por causas justas e coletivas. Com absoluta certeza, devo a motivação quixotesca à inspiração causada pela militância profissional e política do Dr. Armênio Marques (OAB nº 32.224/SP), a quem conheci no início da década de 1980 como advogado comprometido com a resistência democrática e com a defesa dos Direitos Humanos, dos movimentos populares e de suas lideranças.
Entre os anos 1983 e 1986, quando saíamos às noites ou pelas madrugadas para “pichar” muros e colar cartazes de campanhas políticas, eu e meus companheiros do Movimento Estudantil secundarista e da União da Juventude Socialista− dentre os quaiso hoje também advogado e Procurador do Município de Andradina, Delmar dos Santos Candeia (OAB nº 194.291/SP) − levávamos o número do telefone da casa do Armênio anotado à caneta num minúsculo papel que escondíamos, bem enroladinho, no interior das costuras internas dos bolsos das calças jeans.
Aquele número nos dava a coragem e asegurança necessárias para cumprir as missões noturnas pelas ruas de Taboão da Serra e Embu das Artes. Além de seu prestígio como advogado, na época, o Armênio estava à frente da Secretaria de Negócios Jurídicos de Embu, no mandato do ex-prefeito Nivaldo Orlandi. Não tínhamos dúvidas que caso surgissem problemas com a polícia (a ditadura respirava artificialmente), o Dr. Armênio nos socorreria.
Mesmo tendo seu número de telefone, só conheci pessoalmente o Armênio em 1985. Militantedo Partido Comunista do Brasil, ainda na ilegalidade, dentre minhas tarefas eu tinha que passar semanalmente no escritório do Armênio, na Rua Levy de Souza e Silva, para deixar dois exemplares do “Jornal Tribuna Operária”, os quais o Armênio adquiria como forma de ajudar o Partido.
Anos mais tarde,já advogado (OAB/SP 131.016), tive privilégiode receber do Armênio o generoso convite para trabalhar como associado em seu escritório, na mesma Rua Levy de Souza e Silva. Só o menino do Jardim São Salvador, único filho da extensa proledo casal de marceneiro e empregada doméstica que cursou o ensino superior, poderia valorar adequadamente o mérito desse convite.
Permaneci no escritório do Armênio entre o início de 1997 e meados em 1998, quando saí para assumir a Procuradoria Geral do Município de Ribeirão Pires. Durante o ano e meio que estivemos juntos, profissional e politicamente, realizamos muito em prol da coletividade, a exemplo da Ação Popular que tornou inelegível a maioria dos vereadores de Taboão e os obrigou a devolver um montante significativo de dinheiro público gasto no episódio que ficou conhecido como “a máfia dos congressos”.
Em 2005, novamente seria eu abençoado com a honra de trabalhar ao lado do Armênio. Quando assumi a titularidade da Secretaria de Negócios Jurídicos de Taboão da Serra, Armênio aceitou generosamente meu convite para compartilhar seu conhecimento técnico e prestígio político integrando minha equipe como Procurador Consultor do Município.
Em 2004, eu e a Mariana, filha do Armênio e da Amélia, decidimos viver juntos. A Família Pasqual Marques me recebeu de braços abertos e nos deu de presente uma linda festa de casamento. O destino quis que eu Mariana, amor da minha vida, ficássemos separados por 16 anos. Em setembro de 2020, voltamos a nos ver e desse reencontro, em 2024, nasceu a Pequena Amélia, netinha mais nova do Vovô Armênio.
Só posso agradecer à vida por ter me dado uma história de amizade e amor tão linda com o Armênio Marques, um bom pai, um amigo generoso e um companheiro de luta imprescindível.
Obrigado, Armênio!Descanse em paz que seu legado de amor e integridade jamais será esquecido.
Antonio Rodrigues do Nascimento
Taboão da Serra, 27/09/2026.