A fuga de Flávio Bolsonaro e a ironia trágica

A fuga de Flávio Bolsonaro e a ironia trágica

29 de outubro de 2026

Nas beiradas da Metrópolis

Nas beiradas da Metrópolis

Por Antonio Rodrigues

Nem bem passaram dois dias do final das eleições presidenciais e milhões de brasileiros foram surpreendidos pela notícia da fuga do candidato derrotado para os Estados Unidos. Ao que parece, enquanto a militância do partido (PL) absorvia atônita o impacto da inacreditável derrota, despido da ilusão do poder, Flávio Bolsonaro meditava sobre o futuro incerto.

De fato, há razões para a inquietação. Sete minutos após a confirmação dos resultados, a Polícia Federal formalizou ao STF o pedido de retenção dos passaportes de Flávio e de decretação da proibição de deixar o país. No dia seguinte, em pronunciamento público, o senador acalmou seus correligionários dizendo que jamais pensou em sair do Brasil, que entregaria os documentos e enfrentaria a Justiça de cabeça erguida. Também assumiu o compromisso de liderar a oposição a partir das robustas bancadas que seus aliados conquistaram no Congresso Nacional.

Contudo, ele não falou a verdade: durante a madrugada que se sucedeu ao pronunciamento, o homem que ambicionou governar a 10ª economia global, com um PIB de aproximadamente US$ 2,655 trilhões e 215 milhões de pessoas, decidiu abandonar o país, aparentemente na tentativa de driblar um destino que lhe pareceu desfavorável.

Segundo a PF, Flávio Bolsonaro e sua família cruzaram a fronteira com a Argentina pela região de Puerto Iguazú. Em seguida, embarcaram num voo que fez escala técnica para reabastecimento em Guayaquil, no Equador, e seguiu para Miami.

Flávio não abandonou só seu eleitorado, mas também fugiu de alguns espectros assombrosos, a exemplo da investigação do financiamento do filme sobre o pai, Jair Bolsonaro (Dark Horse), que contou com 24 milhões de dólares escoados por um fundo registrado no Texas (Havengate Development Fund), operado por Paulo Calixto – advogado de seu irmão Eduardo Bolsonaro – e abastecido pelo ex-banqueiro, Daniel Vorcaro, atual residente da Papudinha.

Fugiu igualmente aos questionamentos sobre a quitação relâmpago de sua mansão de R$ 6 milhões no Lago Sul; das complexas operações do advogado Willer Tomaz, apontadas pela PF como um esquema de R$ 1,4 bilhão envolvendo plataformas de apostas e contas na Ilha da Madeira nas quais o senador figurava como “usuário master”; das memórias incômodas das “rachadinhas” da Alerj, com lavagem de dinheiro apoiada em franquias de chocolate e contas de ex-assessores, além das evidências da associação de sua atuação parlamentar com as milícias e outras figuras do submundo do crime carioca.

A inquietação de Flávio deve ter sido agravada pela iminência da perda da imunidade parlamentar da qual goza ininterruptamente desde 2003, ano em que foi investido no primeiro mandato de Deputado Estadual, cargo que manteve até 2019, quando tomou posse no Senado e ampliou nacionalmente a imunidade restrita até então ao sistema de Justiça do Estado do Rio de Janeiro.

Ao desembarcar com a família nos EUA, sob a proteção de Donald Trump e Marco Rubio, Flávio Bolsonaro apressa-se em construir a narrativa do “exílio político”, tal qual seu irmão Eduardo, também foragido da Justiça brasileira. Em Brasília, alguns aliados ensaiam denúncias de suposta perseguição do regime para justificar a fuga. Mas para além da retórica política, pesa mesmo o silêncio eloquente do eleitorado crente no discurso da “Pátria acima da Família, apenas abaixo de Deus” ante a urgência de seu líder na troca da “salvação da pátria” pela salvação de si mesmo.

A precipitação da fuga sugere que Flávio tem um medo ainda incompreensível totalmente pelos milhões de eleitores deixados com a dolorosa tarefa de descobrir a diferença entre a lealdade e a cumplicidade.

O episódio não deixa de ter uma dimensão existencial que nos remete à chamada “ironia trágica”: a situação dramática em que uma verdade importante é ignorada pelo personagem que toma decisões que o levam exatamente ao oposto daquilo que ele deseja, geralmente a um desfecho trágico.

Na tragédia grega “Édipo Rei” (Sófocles), ao conhecer a profecia de que o filho recém-nascido, Édipo, o mataria e se casaria com a própria mãe, o rei Laio ordena a morte do bebê, abandonado na encosta da montanha. Édipo sobrevive e é adotado por um casal de pastores. Anos depois, ao saber da profecia, Édipo foge de sua cidade para proteger o pai e a mãe adotivos (que ele pensava ser os biológicos). Na fuga, luta com um desconhecido e o mata. A vítima era o rei Laio. Na sequência, resolve o enigma da Esfinge e torna-se rei de Tebas ao casar-se com a viúva do rei, a rainha Jocasta, sua mãe biológica.

Nos textos religiosos hindus encontramos personagens que tentaram trapacear o destino, geralmente movidos por um ego inflado. Os Puranas relatam que o rei Hiranyakashipu, ao ver seu pedido de imortalidade negado pela divindade, tentou ludibriá-la pedindo a benção de não ser morto nem por homem nem por animal, nem de dia nem de noite, nem dentro nem fora de casa. A divindade atendeu ao desejo e castigou a soberba encarnando como Narasimha, avatar com corpo humano, cabeça e garras de leão (nem homem nem animal) e matou Hiranyakashipu no crepúsculo (nem dia nem noite), no portal da casa (nem dentro nem fora).

Ironicamente, ao fugir do país para escapar ao devido processo legal, Flávio Bolsonaro talvez tenha criado as condições ideais para a concretização do seu destino e antecipado o confronto com as consequências inevitáveis dos seus próprios desejos.

Antonio Rodrigues do Nascimento

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