“Fica quieto, menino!”

“Fica quieto, menino!”

5 de outubro de 2026

Nas beiradas da Metrópolis

Nas beiradas da Metrópolis

Por Antonio Rodrigues

Foi pouco antes do Natal de 1977, num daqueles dias de sol escaldante com pancada de chuva no meio da tarde. Lá se vão quase 5 décadas e as lembranças permanecem vívidas. Alguns personagens centrais da história já não estão mais entre nós e outros, quiçá ainda viventes, talvez não queiram revisitar o passado.

Final de ano, época de férias escolares, além dos serviços domésticos, a Mãe cuidava sozinha de dois bebês, uma com poucos meses de vida e outro que faria 2 anos dali a poucos dias; mais um menino de 7 e duas meninas de 9 e 11 anos de idade. Se fosse um dia de aula ou não estivesse chovendo, eu e minhas irmãs mais velhas poderíamos estar na escola ou fazendo algo diferente de implicarmos entre si. Eu provavelmente estaria brincando no quintal, na casa de amigos ou mesmo na rua, onde passava a maior parte do tempo livre.

Após meia hora ou menos de clausura, após umas e outras desavenças, eu e minhas irmãs nos unimos num coro infernal de “queremos Ki-Suco! Queremos Ki-Suco! Queremos Ki-Suco!” O pozinho rico em corantes e aromatizantes artificiais era muito popular. O envelope custava poucos centavos de cruzeiro e rendia um “jarrão” de refresco que adoçávamos a gosto do paladar infantil.

Tão logo cessou a chuva, a cansada Mãe deu-se por vencida. Colocou as moedas na minha mão e ordenou: “Vai comprar o bendito Ki-Suco!”

O relevo da rua onde morávamos é importante para entender a dinâmica dos acontecimentos seguintes: a Rua 10 de Março tem cerca de 300 metros de comprimento que se estendem num arco que se inicia na subida a partir da Rua São Pedro, depois nivela-se em sua maior extensão e desce para terminar na confluência com a Avenida Antônio de Oliveira Salazar. Quem está no trecho plano e elevado não consegue enxergar as esquinas sem se aproximar dos pontos onde a rua começa a descer para chegar ao nível mais baixo em ambas as extremidades.

Delimitado entre as casas da Dona Luci, a Leste, e da Dona Lucia, a Oeste, no trecho plano jogávamos futebol, taco, queimada e outras brincadeiras com bola. Quem lançasse a pelota ladeira abaixo tinha obrigação de correr para recuperá-la. Já as descidas serviam como pistas de carrinhos de rolimã e rampas pelas quais intrepidamente rolávamos dentro de pneus.

A única venda da rua ficava na esquina com a avenida. Aos 7 anos de idade e aproximadamente 1 metro de altura, eu não conseguia vê-la sem antes ultrapassar a casa da Dona Lucia, situada a uns 50 metros da nossa.

Com as moedas na mão, saí correndo. Ao subir as escadas (a nossa casa ficava abaixo do nível da rua) ouvi uns “pipocos” distantes. Tiros eram eventos comuns no bairro e adjacências. A chuva tinha parado há pouco e a rua estava deserta, porém, mal iniciei o percurso, dois homens em desabalada carreira vindo da direção da avenida passaram por mim. Imediatamente atrás deles, outros dois mais lentos, mas igualmente apressados, seguiram os primeiros.

Ao cruzar com os retardatários notei que um deles tentava desajeitadamente enfiar um revólver na cintura, enquanto o outro ocultava um volume sob a camisa, protegendo-o com a mão como que para evitar a queda durante a marcha. Os quatro eram conhecidos: três moravam na própria Rua 10 de Março e outro na 25 de Janeiro, a “rua debaixo”. Todos eram amigos da nossa família. Bem verdade que, apesar da amizade, ao cruzarmos nossos caminhos naquelas circunstâncias não houve cumprimentos ou brincadeiras habituais. Aliás, foi como se eu estivesse invisível para eles.

Pode parecer estranho neste tempo de crianças perspicazes que “farmam auras” e têm milhares de seguidores nas redes sociais, mas tudo aconteceu tão rápido que eu prossegui sem preocupação alguma além daquela de encontrar Ki-Suco sabor morango, primeira opção combinada com minhas irmãs. Ademais, armas e cenas de violência faziam parte da rotina na vizinhança. Na época, muitos chefes de família (inclusive nosso pai) mantinham armas de fogo em casa e alguns andavam armados no dia a dia.

Ultrapassei a casa da Dona Lucia e cheguei ao ponto onde começa a descida. Dali pude ver ao longe um homem caído de costas em frente à venda. Não vi mais ninguém por perto. Ainda hoje não sei por que cargas d’água continuei descendo até paralisar atônito diante do sangue borbulhando na boca e escorrendo pela bochecha do infeliz de olhos arregalados e inertes.

Voltei no mesmo pé para casa. Em instantes venci a distância, desci a escada ofegando e exclamei:

“Mãe, mataram o Neno!”*

Ela não hesitou e respondeu imediatamente:

“Fica quieto, menino!”


Antonio Rodrigues do Nascimento
*O nome é fictício para preservar a identidade da vítima e de sua família.

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