E se não for ELE o meu inimigo?

E se não for ELE o meu inimigo?

19 de outubro de 2026

Claudia Funari

Claudia Funari

Jornalista

 

Se você anda sentindo que faz parte de um grupo restrito, que só consegue confiar em pessoas que têm os mesmos valores e crenças que você, e se por outro lado, acaba suspeitando de quem tem uma opinião diferente da sua, sente até um pouquinho de raiva lá no fundo, talvez você esteja ficando ilhado. É como se, de repente, seu mundo estivesse bem menor.

No período eleitoral então, próximo de uma decisão como a que temos pela frente, as pessoas tendem a se fechar ainda mais, buscando apoio entre quem reafirma as suas crenças e se distanciando de qualquer tipo de discussão aberta. Onde o saudável seria conhecer a realidade e levantar os pró e contras de cada situação, o que vemos são torcedores fanáticos.

E qual é o problema de estar restrito à uma ilha? O problema é enorme, porque tem haver com a falta de confiança em tudo que é diferente, o que prejudica o desenvolvimento econômico e da sociedade como um todo. Estamos falando de um processo que está em curso e atinge pessoas no mundo inteiro.

Esse isolamento impede que assuntos importantes sejam tratados no cotidiano por pessoas comuns e por governos, causa animosidade nos relacionamentos, dificulta a resolução de conflitos e gera desconfianças generalizadas e desesperança. Afeta o bom funcionamento das sociedades.

Uma pesquisa feita pela Edelman Trust Barometer, em 2025, que entrevistou 33.938 pessoas em 28 países, aponta que 30% dos entrevistados se disseram com dificuldades de acreditar em alguém que tenha opiniões diferentes das dele, outros 40% afirmaram serem hesitantes, em acreditar no diferente. Apenas 30% se disseram abertos, ou seja, 70% tem uma tendência a desconfiar de pessoas que tenham opiniões diversas.

As pessoas estão sendo empurradas para suas ilhas por um processo que tem fatores comuns pelo menos nesses 28 países onde a pesquisa foi feita, entre eles: aumento do custo de vida, mudanças econômicas que resultam em perdas, pandemias, discriminação, desinformação e tensão geopolítica como as guerras e os embargos tarifários.

Essas pessoas acreditam que seu país esteja dividido, elas estão ressentidas porque julgam que os governos e as instituições estão contra ela e não a seu favor. Acreditam que os sistemas privilegiam os mais ricos em detrimento dos mais necessitados e conseguem identificar situações de muita injustiça.

E qual seria o antídoto contra essa tendência tão prejudicial? Segundo o relatório Edelman, as possibilidades de mudança estão nos 30% que se mantêm abertos para o diferente. Essas pessoas ao invés de tentar fazer com que o outro mude de opinião, devem ouvir sem julgamento e ajudar a traduzir a realidade.

Uma intermediação de confiança feita por quem está aberto, pode ajudar a unir e a transpor divisões. Segundo o relatório, os empregadores e as empresas seriam a instância para a argumentação, para a mediação de opiniões. Indivíduos e instituições podem e devem fazer as pontes necessárias entre os indivíduos com o objetivo de transpor as diferenças e avançar.

Quando tentamos compreender as situações e as opiniões de maneira ampliada, ouvindo mais e julgando menos, talvez possamos perceber que aquela pessoa que você não quer nem ouvir a voz, porque discorda de seus posicionamentos, não seja sua inimiga, talvez você ou ela precisem apenas entender o ponto de vista uma da outra e colocar delicadamente os fatos, para que esses sim, apontem o caminho de cada análise.

 

Edelman Trust Barometer é uma das maiores consultorias de comunicação e relações públicas do mundo. https://www.edelman.com/trust/2026/trust-barometer

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