Se você anda sentindo que faz parte de um grupo restrito, que só consegue confiar em pessoas que têm os mesmos valores e crenças que você, e se por outro lado, acaba suspeitando de quem tem uma opinião diferente da sua, sente até um pouquinho de raiva lá no fundo, talvez você esteja ficando ilhado. É como se, de repente, seu mundo estivesse bem menor.
No período eleitoral então, próximo de uma decisão como a que temos pela frente, as pessoas tendem a se fechar ainda mais, buscando apoio entre quem reafirma as suas crenças e se distanciando de qualquer tipo de discussão aberta. Onde o saudável seria conhecer a realidade e levantar os pró e contras de cada situação, o que vemos são torcedores fanáticos.
E qual é o problema de estar restrito à uma ilha? O problema é enorme, porque tem haver com a falta de confiança em tudo que é diferente, o que prejudica o desenvolvimento econômico e da sociedade como um todo. Estamos falando de um processo que está em curso e atinge pessoas no mundo inteiro.
Esse isolamento impede que assuntos importantes sejam tratados no cotidiano por pessoas comuns e por governos, causa animosidade nos relacionamentos, dificulta a resolução de conflitos e gera desconfianças generalizadas e desesperança. Afeta o bom funcionamento das sociedades.
Uma pesquisa feita pela Edelman Trust Barometer, em 2025, que entrevistou 33.938 pessoas em 28 países, aponta que 30% dos entrevistados se disseram com dificuldades de acreditar em alguém que tenha opiniões diferentes das dele, outros 40% afirmaram serem hesitantes, em acreditar no diferente. Apenas 30% se disseram abertos, ou seja, 70% tem uma tendência a desconfiar de pessoas que tenham opiniões diversas.
As pessoas estão sendo empurradas para suas ilhas por um processo que tem fatores comuns pelo menos nesses 28 países onde a pesquisa foi feita, entre eles: aumento do custo de vida, mudanças econômicas que resultam em perdas, pandemias, discriminação, desinformação e tensão geopolítica como as guerras e os embargos tarifários.
Essas pessoas acreditam que seu país esteja dividido, elas estão ressentidas porque julgam que os governos e as instituições estão contra ela e não a seu favor. Acreditam que os sistemas privilegiam os mais ricos em detrimento dos mais necessitados e conseguem identificar situações de muita injustiça.
E qual seria o antídoto contra essa tendência tão prejudicial? Segundo o relatório Edelman, as possibilidades de mudança estão nos 30% que se mantêm abertos para o diferente. Essas pessoas ao invés de tentar fazer com que o outro mude de opinião, devem ouvir sem julgamento e ajudar a traduzir a realidade.
Uma intermediação de confiança feita por quem está aberto, pode ajudar a unir e a transpor divisões. Segundo o relatório, os empregadores e as empresas seriam a instância para a argumentação, para a mediação de opiniões. Indivíduos e instituições podem e devem fazer as pontes necessárias entre os indivíduos com o objetivo de transpor as diferenças e avançar.
Quando tentamos compreender as situações e as opiniões de maneira ampliada, ouvindo mais e julgando menos, talvez possamos perceber que aquela pessoa que você não quer nem ouvir a voz, porque discorda de seus posicionamentos, não seja sua inimiga, talvez você ou ela precisem apenas entender o ponto de vista uma da outra e colocar delicadamente os fatos, para que esses sim, apontem o caminho de cada análise.
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